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Uma vez estive na medina de Fez-El Bali, no Marrocos, que possui 160 mil habitantes e por onde não passam carros nem ônibus. Essa é a maior área livre de carros do planeta.

Fez é um tipo de cidade de grande escala estruturada para os pedestres. Como isso é possível? Basicamente, porque seu padrão urbanístico exemplifica uma parte da história humana, a maior, diga-se de passagem, quando não existia veículos a vapor ou motor. Então, digamos, ela não foi desenhada para os carros.

Outro exemplo de cidade estruturada para os pedestres é Veneza, que inclui um sítio histórico de 60 mil habitantes por onde também não passam carros. No caso, é também navegável. As gôndolas e outras embarcações servem de apoio para os pedestres vencerem maiores distâncias.

Paris, apesar de seus mais de 2 milhões de habitantes, é uma cidade que fica livre dos carros em certos datas. Isso acontece na Journée sans ma voiture, que se celebra todo ano em setembro. Neste ano, o uso de carros ficou proibido por um dia inteiro em todo o perímetro da cidade. Como é possível ficar sem carro em uma cidade tão grande? Primeiro, é uma questão de pensar diferente. Segundo, era um dia de domingo. Terceiro, Paris é também reconhecida pela abrangência do seu transporte integrado e multimodal. Ela fica, porque não, estruturada para pedestres, com apoio de bicicletas, táxis e transportes públicos coletivos.

Em todas essas três cidades há algum tipo de integração com outros modos de transporte. Em Fez a integração acontece nos portões dos muros que a cercam. Em Veneza é com as embarcações e em Paris com o transporte integrado e multimodal. Em todas elas o pedestre foi visto em primeiro lugar. Por essa razão, argumento que são estruturadas para pedestres.

E Brasília? Aqui a integração acontece na porta de casa, e é com os carros, que acabam roubando a cena. O uso majoritário deles, diferentemente das outras três cidades aqui comentadas, ofusca células menores estruturadas para os pedestres, como o interior das superquadras e o Setor Comercial Sul, por exemplo.

Observe que não estou falando das outras cidades do Distrito Federal. Ah… se aqui a integração fosse com o transporte integrado e multimodal…

É necessário que a sociedade cobre urgência do governo em relação a políticas urbanas que tornem o DF estruturado para pedestres. Eu, um pouco contaminado por estar trabalhando com essas políticas no poder público local e federal há mais de 15 anos, argumento que as mudanças não acontecem tão rápido.

Exemplifico com a infraestrutura para ciclistas no DF, que em outra oportunidade chamei de “corrida cicloviária”, que apesar de extensa ainda precisa de muitas melhorias, o que só se dá com mudanças incrementais, exercício da cidadania e paciência.

É mais ou menos esse o espírito da Associação Andar a Pé, um movimento de ativismo propositivo que pede urgência e, ao mesmo tempo, divide as dificuldades com o governo. Sonho estar vivo para ver o DF estruturado para pedestres com a expansão das amenidades como, por exemplo, o sombreamento e integração das calçadas, que há nas células menores, coexistência com ciclistas e integração com o transporte público coletivo.

Este texto é uma adaptação da minha fala, em nome da Andar a Pé, no evento Light on Bike, promovido pela embaixada da Suécia, em Brasília, no último 03 de outubro.

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